Cap IV – Todo azul do mar


         A apresentação da peça teatral ocorreu um dia após o velório. Diante meu luto, todos pensaram que não haveria mais peça devido à suposição da minha ausência. Mas, para a surpresa do grupo, eu fui, tanto no último ensaio pela manhã, quanto na apresentação à noite. Sempre me doei de corpo e alma para arte, e daquela vez não seria diferente. Eu jamais deixaria na mão as pessoas e um trabalho que tanto me ajudou, dando forças para enfrentar aquele último mês ao lado dela. E, acima de tudo, o nosso combinado era que ficássemos bem.
        Se eu pudesse resumir a magia da peça, resumiria na sua música de abertura:

Fada madrinha (Vanessa Falabella)

Todos teus sonhos mais dourados,
Serão verdade se você tem fé,
É só saber acreditar.

Fada madrinha, abre os meus olhos,
Pras coisas simples, verdadeiras,
O mundo é bom, eu quero crer
Que a vida é maravilhosa,
Tão pouca gente sabe ver
O ouro oculto sob o chão,
O diamante no carvão.

Um mundo cego adormecido
Cerrou seus olhos para a luz do amor
E o tempo escorre pelas nossas mãos fechadas,
Será que é tão difícil assim ser feliz?

Ninguém é só, nem está perdido,
Existe alguém maior que olha por nós,
Que estende a mão, que espera no silêncio,
Docemente, Fada Madrinha, Luz do Bem.

         A peça se encerrava mostrando a harmonia de um casal apaixonado olhando nos olhos um do outro e sorrindo, ao final de um culto do evangelho no lar. Nos primeiros ensaios foi desconcertante encarar por alguns segundos aquele homem estranho, mas no dia da apresentação já estávamos à vontade, ao ponto do nosso olhar, de uma forma inexplicável, não querer mais se desviar.  A minha “fada madrinha” já havia feito o papel dela, de me unir ao meu "príncipe" exatamente naquela parte.        
         
     Logo após a apresentação, ele foi embora, e eu também não estava com cabeça para ficar para o show previsto. Mas, no outro dia, como a comemoração do aniversário da cidade continuava, ao invés de me entregar ao luto, fui com minha prima para a pracinha da cidade, onde teria outro show. Alguns colegas do grupo teatral estavam lá, dentre eles, meu príncipe charmoso. Fiquei um pouco com eles conversando e assistindo a apresentação.
- Você bebe? – Perguntei a ele, que parecia ser certinho e "careta", quando me ofereceu uma caipifruta.
- Não! – Ele respondeu sorrindo e espantado. – É com refrigerante.
         
     Após um tempo, um rapaz passou vendendo umas pulseiras hippie. E talvez por eu não ter aceitado um caipifruta, ele insistiu em me presentear com uma pulseira, mas recusei agradecida. Ele queria me agradar e eu não queria incomodar. Sabia que estavam todos fragilizados pela minha situação, mas a intenção era somente me distrair um pouco.
         
       Minha querida prima (outro anjo na minha vida), mesmo de longe, percebeu o interesse dele por mim. E quando me juntei a ela para irmos embora, perguntou se estava rolando algo, e que não teve como não reparar o “clima”. Fiquei surpresa e assustada ao mesmo tempo. Até então pensava ser fantasia apenas da minha mente.  
         
     Combinamos de nos encontrar durante a semana na casa espírita, quarta-feira, dia de estudo e tratamento espiritual. E naquela mesma noite, quando cheguei em casa, me deparei com seu primeiro e-mail com uma mensagem motivacional que ele havia ficado de enviar.

“Em Terça-feira, 14 de Junho de 2005, Alex Sander, escreveu:

Priscila
     Estou lhe enviando uma mensagem muito legal, espero que goste!
Alex

P.S.: Desculpe-me pela situação que eu te coloquei hoje na festa com relação à pulseira. Não tive a intenção de constrangê-la, apenas pensei que pudesse lhe agradar. Mil perdões. Alex.”

Logo respondi:

“Em Terça-feira, 14 de Junho de 2005, Priscila Fonte Mattos, escreveu:
Oi Alex,
Obrigada pela mensagem, achei muito legal, aprendemos muitas coisas com mensagens assim... Valeu mesmo!
E quanto à pulseira você ñ me constrangeu meu bem, só ñ quis abusar da sua boa vontade, o que vale sempre é a intenção e sei que a sua foi boa. :-)
Um abraço. Priscila.”
         
     No outro dia, ele enviou outro e-mail respondendo ao meu, com mais uma mensagem motivacional.

“Em Quarta-feira, 15 de Junho de 2005, Alex Sander Cunha, escreveu:
Priscila,
Obrigado por aceitar as minhas desculpas.
Estou te mandando mais uma encomenda.
Alex
P.S. Achei (emoticon sorrindo) o "meu bem".

“Em Quarta-feira (madrugada), 15 de Junho de 2005, Priscila Fonte Mattos, escreveu:
Obrigada pela outra encomenda, "meu bem" é o hábito, ensaiamos muito isso p/ peça (risos).  Vc tem msn?
Priscila”
    
     Como ele só entrava na internet a noite, eu sabia que nos veríamos na casa espírita antes dele responder o último e-mail, conforme o combinado. E nesse dia esperado, quando cheguei para assistir o estudo ele ainda não havia chegado. Quando chegou, o salão já estava cheio e nem reparei se havia notado minha presença. Ao final, como de costume, fiquei esperando para receber um passe, que fazia parte do meu tratamento espiritual. Fui uma das últimas a ser atendida e quando sai quase todos já haviam ido embora, inclusive ele. Pensei que ele fosse me esperar lá fora para conversarmos um pouco, mas não encontrei ninguém. Fui caminhando para casa triste e um pouco frustrada. Naquele momento, presa em meu pensamento, percebi meus sentimentos. Uma tristeza profunda tomou conta, pois eu havia concluído que ele não gostava de mim da mesma forma que eu gostava dele. O que custava ele ter me esperado? Mas, acabou a peça, acabou a fantasia e a magia. O pessimismo sempre fazia parte de mim, devido à baixa autoestima talvez causada pelo excesso de timidez. Sempre fui muito introvertida, só conseguia me expressar através das artes, como interpretando um personagem em cima de um palco, cantando ou escrevendo, por exemplo. Conversas reais com pessoas que não fossem meus familiares e amigos mais próximos, raramente duravam mais que um minuto. Por isso havia pensado na possibilidade de conversarmos pelo msn, chat de bate papo da época. Nossas conversas virtuais certamente durariam mais que um minuto, e eu iria conseguir conhecer melhor aquele homem que tanto me encantou. Mas, meu objetivo naquele momento parecia não fazer mais tanto sentido. No caminho de volta para casa, caminhando solitária pela rua mais ou menos às 22h, tive a triste constatação que eu já estava apaixonada, e que aquilo parecia ser platônico.
         Cheguei em casa arrasada, e daquela vez não era por conta do luto. Liguei o computador e não havia nenhuma mensagem dele. Já havia perdido a esperança quando, após a meia noite, horário em que conectávamos devido à internet discada, para minha surpresa, chegou seu e-mail:
“Em Quinta-feira, 16 de Junho de 2005 0:41, Alex Sander Cunha escreveu:
Priscila
     Eu tenho o msn 2, o antigo, e o 7.0. Porém o antigo entra sozinho já o 7.0 eu tenho que abrir.
     Hoje no Centro, vc demorou um pouco para descer e eu tive que vir mais cedo (tô terminando um serviço para o Ricardo), mas senti falta de conversar com vc.
     Quanto ao hábito, olha que eu acabo me apaixonando "amor" (emoticon envergonhado).
 Alex
P. S. Amanhã eu te mando mais uma encomenda. Um grande abraço! (emoticon piscando)”
         Li e reli o e-mail muitas vezes, e em todas elas ficava difícil conter a emoção quando chegava na palavra “amor”. “Será?” Pensava. “Não. Ele deve estar só brincando. Não deve estar gostando de mim, senão eu teria percebido. Mas ele é tão sério, não iria brincar com uma coisa dessas...” Na dúvida, era melhor responder logo.
“Em Quinta-feira, 16 de Junho de 2005 1:21, Priscila Fonte Mattos, escreveu:
Alex,
Perguntei do msn porque sinto falta de alguém p/ conversar... Minha família apesar de ñ poder estar tão presente é um amor, meus amigos tb, mas eu sou a única espírita, por isso tem assuntos que ñ posso conversar com eles e preciso conversar com alguém, principalmente nesse momento tão difícil.
No centro eu demoro sempre pq fico p/ receber o passe.
Vou ficar esperando a encomenda. (emoticon sorrindo)
Um abraço.
Priscila”
         E no outro dia, um pouco antes da meia noite, estava lá seu novo e-mail, com mais uma linda mensagem de amizade. Mas junto ele enviou uma música, que eu não estava esperando.
“Em Quinta-feira, 16 de Junho de 2005 23:08, Alex Sander Cunha,  escreveu:
Oi Priscila.
     Com relação ao msn, se vc me mandar uma mensagem eu recebo na versão antiga e aí podemos conversar a vontade. A que horas vc costuma se conectar? Gostaria de saber também se vc está disposta a ir ao baile de domingo no Santos. Será forró, mas dá pra dançar bastante, tem uma turma aqui que está programando de ir (emoticon sorriso sem graça).
     Estou enviando a encomenda 3 - A missão, espero que vc goste. Sem querer te incomodar estou mandando uma outra encomenda. Espero, sinceramente, que vc goste, ela tem muito a te dizer.
     Aguardo as suas respostas. Um grande abraço. (emoticon pensativo)
Alex”
A música era "Todo azul do mar"

Foi assim como ver o mar
A primeira vez que meus olhos
Se viram no seu olhar
Não tive a intenção
De me apaixonar
Mera distração
E já era o momento de se gostar
Quando eu dei por mim
Nem tentei fugir
Do visgo que me prendeu
Dentro do seu olhar
Quando eu mergulhei
No azul do mar
Sabia que era amor
E vinha pra ficar...

         Lágrimas de felicidade rolaram pelo meu rosto após ouvir sua declaração através de uma música que marcou o início de uma linda história. Eu não conseguia conter a emoção, mesmo com a dúvida sempre presente, consequência da insegurança de uma tímida reservada.
         Durante o resto da semana conversamos pelo msn. Ele também era introvertido, por isso as conversas pessoalmente não fluíam nunca. Devido à minha incerteza, e conselhos da minha prima que era a única pessoa que sabia, não toquei no assunto da música. Esperei até o dia do baile que ele havia me convidado. Se ele realmente estava apaixonado, no domingo à noite eu iria descobrir.


Comentários