Prefácio


De mãos dadas, passeava com meu companheiro pelas ruas da cidade que, fora da temporada, considero meu paraíso. Estávamos voltando do restaurante que se localizava na mesma rua em que ficamos hospedados. No meio da calçada havia um canteiro com flores e cercas em volta. Eu fui para um lado, ele para o outro, e esticamos os braços por cima das flores, mas como o canteiro era grande tivemos que nos soltar para passar por elas. No momento em que nos soltamos, ele disse sorrindo num tom de desapontamento: “Separados pelas flores!” Nesse momento, minha vida passou pela minha mente como um flash e senti uma imensa vontade de escrever um livro. Já tinha conteúdo suficiente para isso. Meus últimos anos pareciam décadas, eu havia passado por experiências dolorosas e marcantes, que me proporcionaram grande aprendizado. Uma historia triste, alegre, gostosa, sofrida e, o que era mais importante, vivida. Mas, será que valia a pena me expor? No momento achei pretensioso demais. Porém, não dizem por aí que existem três coisas que precisamos fazer antes de partir? Plantar uma árvore, ter filhos e escrever um livro. Apesar da última ser vista como a mais difícil, para mim é a única “possível” e instigante no momento. E além de compartilhar minhas experiências eu poderia falar um pouco dos anjos que fizeram e fazem parte da minha vida. Nem todos tem o privilégio de conviver com pessoas incrivelmente bondosas. Eu tive, e tenho, o privilegio de conviver e ter convivido com algumas.


Passaram-se alguns anos desde então, e agora estou aqui, realizando esse objetivo. “Separados pelas flores” usa o sentido abstrato e literário da frase. Será que simples flores podem separar pessoas? Às vezes podem sim, e nos momentos de despedidas dessa vida, por exemplo, estão sempre lá, vistosas, perfumadas, delicadas e prontas para nos separar.

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