Cap XVII - Meu querido irmão



                Estávamos deitadas na cama na casa do meu tio no Rio de Janeiro, após uma das sessões de quimioterapia, onde ela se sentia muito indisposta. 
- Nossa família é especial. - Ela disse com um sorriso cansado e um brilho no fundo dos olhos. 
- É sim. - Confirmei sentindo que ela se referia à nossa união naquela fase tão difícil. 
- Você, seu pai e seu irmão também... – Percebi em sua fala uma saudade do meu irmão, que não podia estar ali junto com a gente, por estar trabalhando e morando na nossa cidadezinha do interior. 
                Assim que ela foi desenganada pelos médicos, voltamos a morar no interior, em nossa casa que era como um templo de paz e amor, devido aos tratamentos alternativos. Nesse período, meu irmão, junto com sua namorada, esteve sempre ao lado dela. Na presença de todos nós ela se sentia completa e feliz. E foi assim que ela se sentiu até sua partida, rodeada por todos da sua família, por aqueles que a amavam. Uma dádiva que dinheiro nem conforto nenhum compensariam, num quarto gelado de hospital. Ela passou seus últimos momentos no calor acolhedor do seu lar, e por isso partiu feliz, ou melhor, satisfeita. Não dá para nos sentirmos felizes quando as flores nos separam. 
                Quanto ao meu irmão, o que ele representou, e representa, na minha vida daria um livro. Mas posso tentar resumir nesse pequeno capítulo. 
                Ele foi meu anjo protetor, que me protegeu na infância e adolescência. Acho que, às vezes, até mais do que devia. Sempre achei que a falta de pretendentes fosse devido à minha extrema timidez. Mas logo desvendei esse “mistério”. Não era pelo meu olhar tímido, confundido pelo olhar metido e sério. E sim pelo fato de eu ter um “forte” irmão mais velho.
                Era para o quarto dele que eu corria quando tinha medo de dormir sozinha, o que acontecia quase sempre. Assim como todos os introvertidos,  sempre gostei de ficar só, entretida no meu próprio universo. Mas na hora de fechar os olhos para dormir, parecia que meus demônios interiores surgiam, é só desapareciam na companhia de alguém. Meu irmão conversava e contava piadas até que eu pegasse no sono. Junto a ele, os “demônios” não me atormentavam. 
                Mas, na manhã seguinte ele fazia o papel do “demônio” quando tirava minhas cobertas e me deixava no frio para que eu despertasse logo, ou quando pulava em cima de mim para que eu me assustasse. O que seria de mim sem a alegria e o estresse que ele me causava? O que seria de mim sem seu carinho, sensibilidade e amizade?
                Um ano e meio após a partida da nossa mãe, ele realizou o sonho de ser pai. A partir de então, minha querida cunhada e preciosa sobrinha compartilham a sua fiel proteção.
Sou a tímida, introvertida e reservada 
Ele é o extrovertido, carismático e amigo 
Sou a quietinha, serena e recatada
Ele o inquieto, agitado e esquentado
Sou a careta, correta, certinha
Ele não costumava andar na linha
Sou a queridinha do papai
Ele o queridinho da mamãe
Dizem que temos a mesma cara
Que situação hilária!
Pelo sim ou pelo não
O que importa é a união
A certeza que nada nos separa 
Somos dois pedaços de um só coração 





Comentários