Estávamos
deitadas na cama na casa do meu tio no Rio de Janeiro, após uma das sessões de
quimioterapia, onde ela se sentia muito indisposta.
- Nossa família é especial. - Ela disse com um
sorriso cansado e um brilho no fundo dos olhos.
- É sim. - Confirmei sentindo que ela se referia à
nossa união naquela fase tão difícil.
- Você, seu pai e seu irmão também... – Percebi
em sua fala uma saudade do meu irmão, que não podia estar ali junto com a gente,
por estar trabalhando e morando na nossa cidadezinha do interior.
Assim
que ela foi desenganada pelos médicos, voltamos a morar no interior, em nossa
casa que era como um templo de paz e amor, devido aos tratamentos alternativos.
Nesse período, meu irmão, junto com sua namorada, esteve sempre ao lado dela.
Na presença de todos nós ela se sentia completa e feliz. E foi assim que ela se
sentiu até sua partida, rodeada por todos da sua família, por aqueles que a
amavam. Uma dádiva que dinheiro nem conforto nenhum compensariam, num quarto
gelado de hospital. Ela passou seus últimos momentos no calor acolhedor do seu
lar, e por isso partiu feliz, ou melhor, satisfeita. Não dá para nos
sentirmos felizes quando as flores nos separam.
Quanto
ao meu irmão, o que ele representou, e representa, na minha vida daria um livro.
Mas posso tentar resumir nesse pequeno capítulo.
Ele
foi meu anjo protetor, que me protegeu na infância e adolescência. Acho que, às
vezes, até mais do que devia. Sempre achei que a falta de pretendentes fosse
devido à minha extrema timidez. Mas logo desvendei esse “mistério”. Não era
pelo meu olhar tímido, confundido pelo olhar metido e sério. E sim pelo fato de
eu ter um “forte” irmão mais velho.
Era
para o quarto dele que eu corria quando tinha medo de dormir sozinha, o que
acontecia quase sempre. Assim como todos os introvertidos, sempre gostei
de ficar só, entretida no meu próprio universo. Mas na hora de fechar os olhos
para dormir, parecia que meus demônios interiores surgiam, é só desapareciam na
companhia de alguém. Meu irmão conversava e contava piadas até que eu pegasse
no sono. Junto a ele, os “demônios” não me atormentavam.
Mas,
na manhã seguinte ele fazia o papel do “demônio” quando tirava minhas cobertas
e me deixava no frio para que eu despertasse logo, ou quando pulava em cima de
mim para que eu me assustasse. O que seria de mim sem a alegria e o estresse
que ele me causava? O que seria de mim sem seu carinho, sensibilidade e
amizade?
Um
ano e meio após a partida da nossa mãe, ele realizou o sonho de ser pai. A
partir de então, minha querida cunhada e preciosa sobrinha compartilham a sua
fiel proteção.
Sou
a tímida, introvertida e reservada
Ele
é o extrovertido, carismático e amigo
Sou
a quietinha, serena e recatada
Ele
o inquieto, agitado e esquentado
Sou
a careta, correta, certinha
Ele
não costumava andar na linha
Sou
a queridinha do papai
Ele
o queridinho da mamãe
Dizem
que temos a mesma cara
Que
situação hilária!
Pelo
sim ou pelo não
O
que importa é a união
A
certeza que nada nos separa
Somos
dois pedaços de um só coração

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