Cap. XXIV – Memórias da infância

"Pri, você é uma irmã muito especial e eu te adoro. Gosto de desenhar e brincar de Barbie com você. Espero que sempre sejamos boas irmãs e amigas. Milhares de beijos para você. O autógrafo da sua irmãzinha que te ama (assinatura dela). 16/05/1999."
Há 18 anos, minha irmã mais nova deixou essa mensagem para mim num caderninho (Diário da Priscila da TV Colosso), que tenho guardado até hoje. Como descrevê-la? Um anjinho que entrou em minha vida quando eu tinha oito anos de idade, e ela quatro. Lembro-me até hoje da conversa particular que meu pai teve comigo para contar sobre ela, sem prever minha reação. Mas, assim como a maioria das crianças, recebi a notícia com naturalidade e empolgação. Queria conhecer logo alguém que eu já gostava, mesmo sem ainda ter conhecido.
Me encantei com ela desde o primeiro momento que a vi. Ela tinha cabelos de boneca, cachinhos dourados, olhos grandes, devido aos óculos de grau, e um jeitinho muito carinhoso. Ela não saía do meu lado quando ia me visitar, assistíamos filmes grudadas. Ela me fazia muitos desenhos com declarações carinhosas.  E quando eu ia visitá-la, ela me recebia com o mesmo carinho e dedicação. Quanta coisa aprendi com aquela irmãzinha que entrou na minha história para fazer morada, com todo seu afeto, delicadeza e sensibilidade. Ela certamente deixou minha infância e adolescência ainda mais colorida. Depois, ela cresceu, a vida tomou novos rumos e nos distanciamos um pouco. Porém, apesar do pouco contato, a frase do seu recadinho "Espero que sempre sejamos boas irmãs e amigas" é recíproca. E nossos laços de sangue e de coração são mais forte do que tudo. No fundo sabemos que podemos contar uma com a outra sempre... pois as crianças que fomos continuam guardadas em nossos corações.
Também tive minha infância e adolescência marcada pela presença constante das minhas primas mais novas, das amigas do lugar onde morava, e das amigas de Volta Redonda, que encontrava todos os finais de semana. Época boa, com lindas e engraçadas recordações.
Uma vez, fomos todos a Lambari - MG, para a casa dos familiares das amigas de Volta Redonda. Cidade do interior, com muito verde, montanhas e uma deliciosa água mineral natural. Não sei por qual motivo cismamos de fazer um piquenique próximo ao casarão antigo onde ficamos hospedadas. Pegamos tudo que havíamos encontrado de comer e mais os utensílios que precisaríamos utilizar. No meio do caminho, carregando as bolsas pesadas, percebemos o exagero que havíamos cometido ao levar tanta coisa para um simples piquenique. Havia muita coisa que certamente não utilizaríamos. - “Acho que trouxemos tudo da cozinha. Só faltava trazer o coador!” Alguém disse. Foi quando minha prima Dai nos olhou com a maior cara de sapeca e mostrou o coador que havia pegado e levado escondido. “Então não falta nada!” Ela disse. Naquele momento todas nós rimos tanto que já valeu pela viagem inteira. O momento do piquenique em si não me recordo, apenas do ocorrido no caminho até lá. Nesse dia percebi que a felicidade realmente está no caminho, nos pequenos detalhes, e nos especiais momentos com as pessoas queridas.
Além das incansáveis brincadeiras de Barbie, onde tínhamos personagens fixos nas bonecas, como numa novela, nossa infância foi marcada também pelas Spice Girls. Eu criava versões das músicas e, além de cantarmos em casa, eu e minhas primas nos apresentávamos nas festinhas da igreja da cidade. Até que teve um dia que fizemos uma terrível apresentação, devido à péssima qualidade do som, e não à falta de talento nosso. Saímos traumatizadas e desistimos da carreira de cantoras “apimentadas”.
Lembro-me também do dia em que meu tio, irmão da minha mãe e pai das minhas queridas priminhas, faleceu, aos 33 anos. Foi um momento muito difícil para todos nós, principalmente para elas. A única coisa que consegui dizer para “consolá-las” é que o pai delas havia ido para o céu, o que costumamos falar para qualquer criança. Não sei como é o “céu”, mas hoje tenho certeza que minha mãe está lá junto com ele, ao lado do seu irmão caçula e do mais velho que também partiu há pouco tempo. E o que me console hoje é perceber que a morte talvez seja realmente como uma viagem. A hora da despedida de um lado é a mesma do encontro do outro lado.


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