Cap. XXI - O dia que não temi a morte


Aproveite ao máximo os bons momentos da vida quando estiver gozando de boa saúde, pois, assim como os ruins, eles também passam...

- Eu amo vocês... - Eu disse com muito esforço, mas calmamente, para meu companheiro e meu pai, que se preparavam na correria para me levar ao hospital. Eu estava deitada na cama já sem forças, com o corpo todo paralisado, com os dedos das mãos dormentes e entortando, taquicardia, pressão na cabeça e uma imensa falta de ar. Para mim, havia chegado minha hora. Eu estava tendo todos os sintomas de um AVC, e sabia que, se sobrevivesse, provavelmente ficaria com sequelas. Dentre as cinco fases da perspectiva da morte, pulei da primeira - negação (quando insisti para que chamassem uma ambulância ou que me levassem correndo para o hospital), para a última fase - aceitação (quando me despedi deles, achando que eu não mais conseguiria escapar viva), em aproximadamente 30 minutos.

Era 7h da manhã de um domingo. Terceiro e último dia do primeiro módulo de um maravilhoso curso de formação em Coach. Eu estava ainda com sono e cansada devido à rotina de acordar cedo e dormir tarde, por isso cochilei por mais uns cinco ou dez minutos e acordei com uma voz chamando pelo meu nome, provavelmente ainda no sono, pois não havia mais ninguém no quarto naquele momento, além de mim. Então levantei e fui tomar o banho que faz parte da rotina diária.

No meio do banho, após retirar o shampoo dos cabelos, fui pega de surpresa por uma sensação muito esquisita. Comecei a sentir falta de ar, taquicardia, fraqueza, como se eu fosse desmaiar a qualquer momento. Fechei o chuveiro rapidamente, me enrolei na toalha e deitei na cama do jeito que estava. Pensei que fosse apenas pressão baixa, então chamei meu esposo para pegar alguns travesseiros e colocar em baixo dos meus pés para elevar as pernas e equilibrar a pressão. A falta de ar já estava tremenda e meus membros (braços e pernas) estavam dormentes e tremendo involuntariamente. Eu havia perdido todo o controle do meu corpo, mas ainda não havia percebido. Após alguns minutos, senti uma pequena melhora e, mesmo ainda fraca e com dificuldade de respirar, tentei levantar da cama para continuar o banho e ir para o curso, porém não consegui nem sentar. Deitei novamente e, a partir daí, os sintomas só pioraram. Senti coisas que nunca havia sentido na vida, como uma onda de calor interna muito forte que começava no peito e subia para a cabeça, era como se eu estivesse pegando fogo por dentro. Foi quando percebi que havia algo de errado e pedi para meu esposo acordar meu pai para me levarem ao hospital. A onda de calor permaneceu por alguns minutos e depois desapareceu, porém depois reapareceu de forma ainda mais intensa. Meu corpo estava hiperventilando já há uns vinte minutos, o que fez com que os dedos das mãos ficassem com a coloração azulada. Além da dormência, senti meus membros paralisarem, e tive a sensação que a respiração também iria paralisar a qualquer momento. Senti meus dedos entortando e uma pressão e dormência na cabeça. Foi quando não tive mais dúvidas "Estou tendo um AVC", eu disse. E me despedi dos anjos que estavam ao meu lado naquela traumatizante crise, que me levaram em uma cadeira com rodinhas (dessas de escritório) até o carro, para chegarmos ao hospital. 

A caminho do hospital, sentada no banco de trás ainda paralisada, percebi que a respiração estava voltando ao normal e já conseguia mexer minhas mãos. Mas o medo da crise voltar era enorme. Pensei que fosse apenas uma pausa, assim como as ondas de queimação por dentro, e que depois tudo voltaria pior. Ainda não passava pela minha mente que poderia ser "apenas" uma crise de pânico.

Chegando ao hospital, antes de me levar ao médico, as próprias enfermeiras fizeram testes físicos de AVC, assim que saí do carro. No consultório médico, repetiram os testes. Apesar de estar tudo normal, fui encaminhada para fazer uma tomografia, para descartar a chance de ter sido um AIT (Ataque isquêmico transitório), conhecido como um pequeno AVC. 

Fui medicada com um calmante (Alprazolam) e, após o exame, liberada com a orientação de retornar ao psiquiatra que havia me passado um medicamento para ansiedade (Paroxetina) e que eu já estava tomando.

A partir dessa grande crise, continuei tendo pequenas crises, quase que diariamente, que me dificultava sair de casa (agorafobia). Além de voltar ao meu psiquiatra, fui em mais dois, sendo que o último é especialista em transtorno de ansiedade e pânico. Foi quando descobri que a grande crise aconteceu porque o psiquiatra que me passou o Paroxetina (ansiolítico e antidepressivo) não deixou claro que, pelo menos no primeiro mês, eu deveria tomar junto o Alprazolam (ansiolítico tarja preta). Nas primeiras semanas de uso de um antidepressivo os sintomas não cessam, e sim podem piorar, ao ponto de termos uma crise dessa gravidade, e que milhares de pessoas têm hoje em dia.

Após a terceira opinião médica, e a mais confiável, passei a usar apenas o medicamento Alprazolam, de duas a três vezes ao dia, para prevenir e controlar as crises e conseguir sair de casa, principalmente para ir trabalhar. O Paroxetina não quero mais ver na minha frente, assim como qualquer outro medicamento que "mexa" nos receptores da serotonina. Porém, vale deixar claro que muitas pessoas se adaptam a esse medicamento, e que cada organismo reage de forma diferente.

Após esse sufoco, descobri que a crise que passei aos 11 anos de idade, relatada no capítulo IX, já se tratava de uma síndrome de pânico, sintoma dessa doença que levarei para o resto da vida - TAG (transtorno de ansiedade generalizada), que causa crises de pânico, ansiedade, despersonalização e depressão (Acho que por isso que meu companheiro me chama de tetrapolar, ao invés de bipolar). Não tem como ter apenas uma identidade tendo que conviver com uma crise de ansiedade generalizada. É como se tivéssemos várias almas em um corpo só... O corpo não dá conta! Descobri após a crise, que essa é uma síndrome que precisa ser levada mais a sério pela sociedade, pois precisa de tratamento como qualquer outra doença. E ainda por cima, seus índices só aumentam com o passar dos dias.

Equilíbrio, talvez seja a palavra chave para vencermos todas as doenças, como já disse minha psicóloga. É preciso equilibrarmos nossa vida espiritual, familiar e profissional. O Coach, assim como a terapia, tem me ajudado muito a retornar ao ponto de equilíbrio. Embora eu ainda esteja me adaptando à dosagem do medicamento e tendo algumas crises que me fazem querer desaparecer às vezes, ao invés de continuar a (sobre)viver dessa forma, hoje tenho certeza de que vai passar. 

Uma parte de mim, às vezes, vai para o fundo do poço e me faz sentir que isso é pesado demais, asfixiante e escuro demais e, o que é pior, vazio demais. Isso me faz ficar tão fraca ao ponto de pensar em desistir de tudo. Mas uma outra parte mostra que, quando caímos no poço sem fim, devemos aprender a voar para sair de lá, valorizar mais as pessoas que realmente nos amam, e nos conectarmos com a nossa essência, para prosseguir e fazer valer o nosso existir. É com essa parte que prefiro ficar, ouvir e tentar transmitir. Unidos somos mais fortes!




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