Nossa ceia estava maravilhosa, como nos anos anteriores. Havia bastante comida, bebida, nozes, castanhas, rabanada, etc., e flores vermelhas para enfeitar a mesa. Ali na garagem de casa (local amplo onde fazíamos as confraternizações), estava eu e minha mãe apenas, verificando se faltava mais alguma coisa e observando como estava bonita aquela (provável) última ceia de Natal que ela participaria conosco. Naquele precioso momento abracei ela e disse olhando em seus olhos:
- É muito bom ter você aqui nesse
Natal.
- Eu também estarei no próximo...
– Sua voz afirmou sorrindo o que seus olhos cheios de lágrimas desmentiram. Nós
duas sabíamos que aquele seria o último, mas doía demais ter que admitir. E
naquele instante preferimos acreditar que continuaríamos juntas para sempre.
Prosseguimos com a noite num
clima de completa harmonia, apesar do peso da doença, e dela já ter sido
desenganada pelos médicos. Mesmo não se prendendo a rituais, meu pai sempre
preparava ótimas ceias, e fazia questão de comprar o maior peru do mercado, pois
ficava todo orgulhoso quando comentavam sobre o “tamanho” do seu peru.
Naquela noite nos esquecemos da
doença. Nos divertimos, dançamos, cantamos e nos preenchemos das presenças uns dos
outros em meio a declarações de amor e muitos gestos de afeto.
O Ano Novo foi no mesmo clima,
naquela cidadezinha onde morávamos, apesar de eu ter tido dores físicas
intensas, devido a um cisto ovariano que me custou um ovário. E talvez por ter
tido esse problema de saúde, minha mãe aguentou sobreviver por mais metade do ano
posterior. Mesmo em estado terminal, ela me acompanhou na cirurgia de torção de
cisto que foi feita em março, e depois ainda cuidou de mim na minha recuperação.
Ninguém nunca soube de onde ela tirou forças para isso. Talvez na mente dela
não existisse a possibilidade de me deixar na época em que mais precisei. Tanto
que, após ter me recuperado da cirurgia, a doença logo tomou conta e ela veio a
falecer em junho (menos de três meses depois). Por isso, para mim, esses dois
meses se tornaram os mais tristes do ano, o do Natal e o do falecimento de
minha mãe, que coincidentemente também é o do meu aniversário.
O Natal seguinte, no ano em que
as flores nos separaram, foi o pior de todos, pois havíamos perdido nossa base,
aquela que fazia com que a família estivesse inteira, além de completa. Era
como andar sem as duas pernas. E assim foram os próximos Natais. Dizem que o
tempo ameniza, mas para mim o tempo apenas fez com que piorasse essa data tão
querida por muitos. Sentia-me sem rumo, sem suporte. E o vazio era tão forte que
meu maior desejo era que essa data passasse rápido, apesar de ver nela a
oportunidade de rever parentes distantes.
Hoje penso que, apesar da
saudade, essa data poder ser diferente para todos nós que “perdemos” entes
queridos. Devemos analisar e guardar a intenção positiva de todas as situações.
É difícil, mas é muito importante ressignificar (buscar uma nova visão) de
momentos como esse. Fui muito privilegiada de tê-la comigo naquele dia
especial, assim como em todos os momentos da minha vida em que ela esteve
presente! Infelizmente, nem todos têm o privilégio de ter tido, ou ainda ter, um
anjo para chamar de mãe. Embora os anjos sempre aparecem nas nossas vidas, seja
em forma de familiares ou amigos, basta que estejamos com o coração aberto para
identificá-los.
“Água velha não move moinho, mas
a que está vindo pode mover”. É para o presente e para frente que se olha. O
resto deve ficar apenas registrado como boas e vivas memórias. Quem sabe um
dia, ainda terei alguém (seja de sangue ou de coração), para que eu possa dizer,
sem lágrimas nos olhos, “Eu também estarei no próximo”. E nessa união familiar
redescobrir o sentido natalino.

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