Cap I – A vida imitando a arte


Quando ouvimos falar em príncipe encantado, imaginamos um homem "perfeito", num cavalo branco, com posses e um lindo castelo. Sabemos que homens assim existem apenas em contos de fadas, embora muitas mulheres ainda esperem por eles até hoje. Entretanto, no mundo real, apesar de quase não existirem príncipes (e os poucos que existem, acredito que não sejam encantados), existem homens (assim como mulheres) com características angelicais, possuidores dos verdadeiros tesouros ocultos da alma. Os anjos são serenos e reservados, jamais se intrometem onde não são chamados. Mas quando precisamos deles, estão sempre prontos a nos guiar e a nos servir de infinita bondade.
Denomino de anjo um “príncipe encantado” que conheci há 12 anos. Aos olhos da sociedade, ele estava mais para um príncipe “desencantado”. Era professor, divorciado, morava em uma pequena casa de aluguel, e tudo o que possuía era uma bicicleta. Mas, aos olhos do coração, era um verdadeiro príncipe. Gentil, cavalheiro, educado, solidário, carinhoso, e carregava sempre um sorriso no rosto, principalmente após ter conhecido sua “princesa”.

Como tudo começou:
- Oi, bom dia! Como vai? Estou te ligando para propor um desafio... – Disse um amigo do grupo teatral da casa espírita que eu participava.
- Bom dia! Pode dizer.
- Estamos adaptando uma pequena peça (esquete) que fizemos há um tempo para apresentarmos no aniversário da cidade, daqui a mais ou menos um mês. Mas uma atriz que participou da outra vez não poderá participar, então pensei em você. Acha que daria para encarar?
-Acho que sim! Qual a personagem?
- Então... É uma peça pequena, mas a personagem é a principal. – Ele disse sem graça, esperando minha reação negativa. – Se achar que não vai dar tudo bem! Mas venha ensaiar com a gente nesse fim de semana para conhecer.
- Nossa! Um mês apenas? (risos) Tudo bem. Vou sim.
Aquele primeiro ensaio foi no pequeno refeitório da casa espírita que eu frequentava. Realmente havia bastante texto para decorar, apesar de ser uma peça de, mais ou menos, trinta minutos. Resolvemos então fazer uma parte no improviso, pois o tempo era curto para decorar tantas falas. Na adaptação foi acrescentada uma cena final à dramatização, onde o casal protagonista encerrava o espetáculo após terem se casado. Uma moça que se envolvia no mundo das drogas encontrava com um velho amigo, que também havia passado pela mesma situação, e ambos se apaixonavam, sendo “resgatados” pelo amor um do outro. “O resgate” era o nome da peça. E mal sabia eu que aquela simples peça teatral resgataria duas vidas que pareciam perdidas.
...         
      “Como eu posso estar apaixonada por ele? Tivemos apenas alguns ensaios! Não é porque o par da minha personagem é gentil, cavalheiro, carinhoso e charmoso, que o ator que o interpreta também é assim. Mas, por que ele seria tão diferente do que é realmente, apenas para compor um personagem simples e comum? Ele é apenas um ator amador, certamente não tão experiente nas artes cênicas como eu, que possuo alguns cursos de teatro, incluindo um curso profissional que me permitiu tirar o registro de atriz. Provavelmente ele só fez algumas peças religiosas na nossa cidadezinha de uns anos para cá, desde um pouco antes de eu entrar para o grupo. Não é normal ver por aí um homem que puxa a cadeira para a mulher sentar, sereno e fiel a uma doutrina de vida. Talvez na geração dele seja normal sim. Qual será a idade dele? Seus cabelos grisalhos revelam que deve ter  uns 40...” Virei para o outro lado da cama naquele momento, e percebi que precisava dormir ao invés de ficar pensando na vida, ou melhor, na minha peça teatral, quer dizer, na minha personagem, está bem (suspiro profundo), no par da minha personagem. Eu iria ter aula no outro dia cedo. O que me animava era que no próximo mês teria férias da faculdade, pois, naquele momento, a última coisa que estava conseguindo pensar era na faculdade. Esforçava-me apenas para tirar as notas necessárias para passar para o segundo período, porque não estava no melhor momento da minha vida. Na verdade, estava no pior momento da minha vida, não sei se ainda existirá alguma outra situação que possa ser pior do que aquela.  Minha mãe dormia no quarto ao lado com meu pai, que havia tirado licença do trabalho para ficar cuidando dela. A metástase já havia se espalhado por muitos órgãos. Ela poderia partir a qualquer hora, e eu sentia que a hora estava próxima.



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