Quando ouvimos falar em príncipe encantado, imaginamos um homem "perfeito", num cavalo branco, com
posses e um lindo castelo. Sabemos que homens assim existem apenas em contos de
fadas, embora muitas mulheres ainda esperem por eles até hoje. Entretanto, no
mundo real, apesar de quase não existirem príncipes (e os poucos que existem,
acredito que não sejam encantados), existem homens (assim como mulheres) com características angelicais, possuidores dos verdadeiros tesouros ocultos da alma. Os
anjos são serenos e reservados, jamais se intrometem onde não são chamados. Mas
quando precisamos deles, estão sempre prontos a nos guiar e a nos servir de
infinita bondade.
Denomino de anjo um “príncipe encantado” que conheci há 12 anos. Aos olhos da
sociedade, ele estava mais para um príncipe “desencantado”. Era professor, divorciado,
morava em uma pequena casa de aluguel, e tudo o que possuía era uma bicicleta.
Mas, aos olhos do coração, era um verdadeiro príncipe. Gentil, cavalheiro,
educado, solidário, carinhoso, e carregava sempre um sorriso no rosto,
principalmente após ter conhecido sua “princesa”.
Como tudo começou:
- Oi, bom dia! Como vai? Estou te ligando para propor um desafio... – Disse um amigo do grupo teatral da casa espírita que eu participava.
- Oi, bom dia! Como vai? Estou te ligando para propor um desafio... – Disse um amigo do grupo teatral da casa espírita que eu participava.
- Bom dia! Pode
dizer.
- Estamos
adaptando uma pequena peça (esquete) que fizemos há um tempo para apresentarmos
no aniversário da cidade, daqui a mais ou menos um mês. Mas uma atriz que
participou da outra vez não poderá participar, então pensei em você. Acha que
daria para encarar?
-Acho que sim!
Qual a personagem?
- Então... É uma
peça pequena, mas a personagem é a principal. – Ele disse sem graça, esperando
minha reação negativa. – Se achar que não vai dar tudo bem! Mas venha ensaiar
com a gente nesse fim de semana para conhecer.
- Nossa! Um mês
apenas? (risos) Tudo bem. Vou sim.
Aquele
primeiro ensaio foi no pequeno refeitório da casa espírita que eu frequentava. Realmente havia
bastante texto para decorar, apesar de ser uma peça de, mais ou menos, trinta
minutos. Resolvemos então fazer uma parte no improviso, pois o tempo era curto
para decorar tantas falas. Na adaptação foi acrescentada uma cena final à
dramatização, onde o casal protagonista encerrava o espetáculo após terem se
casado. Uma moça que se envolvia no mundo das drogas encontrava com um velho
amigo, que também havia passado pela mesma situação, e ambos se apaixonavam,
sendo “resgatados” pelo amor um do outro. “O resgate” era o nome da peça. E mal
sabia eu que aquela simples peça teatral resgataria duas vidas que pareciam perdidas.
...
“Como eu posso estar apaixonada por
ele? Tivemos apenas alguns ensaios! Não é porque o par da minha personagem é
gentil, cavalheiro, carinhoso e charmoso, que o ator que o interpreta também é
assim. Mas, por que ele seria tão diferente do que é realmente, apenas para
compor um personagem simples e comum? Ele é apenas um ator amador, certamente
não tão experiente nas artes cênicas como eu, que possuo alguns cursos de
teatro, incluindo um curso profissional que me permitiu tirar o registro de
atriz. Provavelmente ele só fez algumas peças religiosas na nossa cidadezinha
de uns anos para cá, desde um pouco antes de eu entrar para o grupo. Não
é normal ver por aí um homem que puxa a cadeira para a mulher sentar, sereno e fiel a uma doutrina de vida. Talvez
na geração dele seja normal sim. Qual será a idade dele? Seus cabelos grisalhos
revelam que deve ter uns 40...” Virei para o outro lado da cama naquele
momento, e percebi que precisava dormir ao invés de ficar pensando na vida, ou
melhor, na minha peça teatral, quer dizer, na minha personagem, está bem (suspiro
profundo), no par da minha personagem. Eu iria ter aula no outro dia cedo. O
que me animava era que no próximo mês teria férias da faculdade, pois, naquele
momento, a última coisa que estava conseguindo pensar era na faculdade.
Esforçava-me apenas para tirar as notas necessárias para passar para o segundo
período, porque não estava no melhor momento da minha vida. Na verdade, estava
no pior momento da minha vida, não sei se ainda existirá alguma outra situação
que possa ser pior do que aquela. Minha
mãe dormia no quarto ao lado com meu pai, que havia tirado licença do trabalho
para ficar cuidando dela. A metástase já havia se espalhado por muitos órgãos.
Ela poderia partir a qualquer hora, e eu sentia que a hora estava próxima.

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