Há doze anos e alguns meses. Com os olhos cheios de lágrimas e tentando esconder o desespero, ela me
disse calmamente, segurando minha mão e tentando demostrar alguma esperança.
- Existe alguma
coisa que vai compensar tudo isso.
Com muita dificuldade
engoli meu choro para parecer forte, como já estava acostumada a fazer ao lado
dela. Estávamos sentadas no banquinho em um jardim ao lado de fora de uma
clínica de imagens no bairro de Botafogo, no Rio de Janeiro, aguardando meu pai
que estava pegando o resultado do exame que ela havia acabado de fazer. Mas,
não precisávamos do resultado formal para saber qual era o estágio da doença.
Estava tudo bem nítido, mesmo para nós quase leigos, na tela de imagem e na
expressão do médico na hora do exame. Dentro daquela pequena sala os segundos
de tormento por ver, literalmente, a real situação dela pareceram não ter fim.
A metástase já estava espalhada pela outra mama, sadia até então desde a
mastectomia total da primeira, além de ter tomado seus dois pulmões e fígado.
A esperança de
uma melhora havia se dissipado, abrindo em nossos corações um enorme buraco que
nos conduzia ao abismo novamente, pelo qual passamos em outras fases da doença.
Mas dessa vez, sabíamos que esse novo abismo iria nos separar em pouco tempo.
Meu pai, um guerreiro que jamais demostrava se abalar, saiu de lá ainda com a
certeza que ela iria conseguir se curar. Então seguimos em
frente, como sempre fazíamos, e continuamos à procura de mais terapias
alternativas.
Naquele
momento da minha vida, eu possuía uma fé inabalável, que me dava forças para cuidar da minha mãe querida, mesmo nas piores situações. Mas, não
era fácil, mesmo para quem crê em uma espiritualidade maior e outra dimensão
bem melhor que essa, enfrentar uma doença que estava dominando cada célula do
seu corpo a cada segundo que passava, vencendo suas defesas, vencendo cada
batalha de quimioterapia e outras várias terapias que já fazíamos uso. Menos
fácil ainda era estar preparada psicologicamente para ajuda-la nas crises de
tosse, engasgos, vômitos, etc., provocadas pela doença. Pois em cada um desses
momentos, que ocorriam várias vezes ao dia, eu não sabia se ela continuaria viva
ou se faleceria em meus braços.
Após
ser desenganada pelos médicos, passamos os últimos meses em nossa casa, na
pequena cidade onde cresci. Lá tínhamos o apoio e o carinho do meu irmão mais velho e dos parentes do lado dela,
minhas queridas tias, verdadeiros anjos que tanto nos ajudaram naquele período. Meu pai tirou
licença do trabalho para cuidar dela e correr atrás de outros tratamentos
alternativos. O que mais impressionava, perante tudo que estávamos passando, é
que meu pai era o único ateu entre nós, e, ao mesmo tempo, o único que tinha fé
que ela iria vencer a doença até o último momento. Diante da parapsicologia ele
tinha a certeza que a cura dependia da mente dela e fez de tudo para que
conseguisse reverter o quadro. Seu amor era tanto que, embora não tenha
conseguido a cura, aumentou sua sobrevida consideravelmente. Nossa casa, naquelas
últimas semanas, havia se tornado um templo de flores, orações, passes, preces
e solidariedade de amigos e familiares. A energia era tão boa e intensa que
todos que entravam lá não enxergavam doença, apenas paz e um ambiente
acolhedor. Fazíamos preces três vezes ao dia e meditações ao som de músicas de
relaxamento, junto com reposição de energia através do reiki e da
parapsicologia. Tornei-me reikiana na esperança de ajuda-la a vencer a doença e, após um tempo, meu pai e minhas tias também se tornaram. Então revezávamos na
reposição de energias. Infelizmente não conseguimos curá-la, mas tenho certeza que em vários momentos conseguimos diminuir sua dor.
Aprendi
durante os últimos meses de vida da minha mãe que o pior sentimento relacionado
a alguém que amamos é o de impotência perante o seu sofrimento. Minha mãe foi
durante toda sua vida um exemplo de SER amor. Ela amava a todos
incondicionalmente. Era muito doloroso vê-la passar por tanto sofrimento sem
ter nenhum poder para fazê-lo cessar. Por noites e noites, antes de dormir, cheguei
a pedir em minhas preces que transferisse aquele sofrimento para mim, por não
suportar mais conviver com sua dor. Mal sabia eu que isso não passava de
egoísmo da minha parte, pois tendo sua doença passada para mim, eu partiria em
seu lugar e ela que ficaria a sofrer por minha ausência.

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