Cap III – Últimos momentos



         Eu estava em meu quarto me preparando para dormir após mais um dia exaustivo de faculdade e de cuidados com minha mãe, que dormia na sala por não conseguir mais subir as escadas de casa até o quarto, devido à metástase nos dois pulmões e ao balão pesado de oxigênio. Naquele dia, como nos anteriores, meu pai iria dormir na sala ao lado dela, e eu tentaria dormir e descansar sem me condenar por não estar acordada caso ela precisasse de mim.
         
        Eu já estava deitada quando, de repente, percebi que o clima que estava harmônico na sala havia se alterado. Meu pai tentava desesperadamente contato com minha mãe que não respondia, apenas emitia um ruído constante com tentativas de respirações bem curtas. Ao mesmo tempo em que parecia um sinal de socorro, parecia que havia entrado em estado de choque, como se apenas seu corpo estivesse lá tentando sobreviver, e sua alma já estivesse distante.
         
       Desci as escadas correndo e sentei ao lado de minha mãe. Enquanto segurava sua mão tentando contato, meu pai chamava uma ambulância. O estado de adrenalina era tanto que nem percebemos quanto tempo se passou até a ambulância chegar. Com muito custo e cuidado ela foi levada ao pronto atendimento. Eu, meu pai e minha querida tia, que morava ao lado, fomos atrás. O médico de plantão, quando soube do estágio da doença, percebeu que não havia nada a ser feito. Foi apenas o tempo dela conseguir chegar ao hospital para partir. Quando recebemos a notícia, eu e meu pai nos abraçamos sem entender ainda aquela realidade que, embora já fosse esperada, ainda não estávamos preparados para receber a notícia, e talvez nunca estivéssemos. Eu tinha certeza que o sofrimento de minha mãe havia cessado naquele momento, porém não sabia que o meu continuaria e ainda poderia piorar.
         
     No outro dia, no velório, usei branco. Ao invés de simbolizar minha tristeza, simbolizei a alegria e a paz que minha mãe deveria estar sentindo por ter se libertado de um corpo doente. Sabia que as pessoas não entenderiam, mas depois de tudo que tinha passado, a opinião dos outros havia se tornado tão sem importância, que em nenhum momento hesitei em usar a cor que queria.
         
       As flores que nos separavam eram os temerosos cravos, tão comuns nessas ocasiões. Eles cobriram quase todo o seu corpo, deixando exposto seu rosto, o qual tive muita dificuldade de olhar.
         
        Antes do velório, escolhi a roupa que iria vestir o corpo de minha mãe, um conjuntinho verde que ela adorava e se sentia bonita e a vontade, e no bolso da calça coloquei algo simples e simbólico que apenas eu sabia o que era, e assim que esse símbolo aparecesse em minha vida, de alguma forma, seria um sinal de que minha mãe estaria bem e por perto.

    Alguns dias depois, uma das minhas tias, que esteve muito presente na busca pelas terapias alternativas, apareceu lá em casa com um lindo bouquet de rosas brancas. Naquele momento não consegui conter as lágrimas, pois senti que minha mãe deveria estar bem.
         
      Durante dezenove anos aprendi muito com minha mãe. Não lamento por ter passado momentos difíceis e sofridos na adolescência devido à doença, e sim agradeço por ter tido uma mãe nesse período tão complicado, apesar de tudo. Os conselhos de mãe são como pedras preciosas que jamais devem ser descartadas. Tudo que ela me orientou, devido à sua experiência e sabedoria, ficou e sempre ficará guardado.
         
     Talvez se ela pudesse estar aqui hoje diria que o segredo para uma vida saudável seria primeiro: Não guardar mágoas, perdoar sempre. A mágoa realmente é um veneno que se toma esperando que o outro morra. Segundo: Levar a vida de uma forma mais leve, com humor e otimismo. Para que o pessimismo? Na realidade, nada é tão importante. Terceiro: Se aceitar do jeito que é. Jamais se reprimir devido a opiniões alheias, e jamais deixar de fazer o que gosta. Colocar os próprios sentimentos e objetivos em primeiro lugar, deixando a alma falar e se expressar, sempre. Sem medo de ser feliz.
...

Esperança (07/06/2015)

Contra a vontade você se foi
Pois sabia que um pedaço de mim iria carregar
E que mesmo triste eu iria sobreviver
Esperando pelo dia de novamente poder te abraçar

Sentimos de imediato o alivio de ter cessado toda dor
Da batalha sofrida, do pior que a vida pode proporcionar
Mas fiquei na espera de um contato, de uma luz
Algo que me mostrasse você no caminho que me conduz

O pequeno código deixado até hoje não foi todo revelado
Tirando, às vezes, meu sono e minha paz
Mas busco na lembrança a esperança
De novamente poder caminhar ao seu lado

Assim conseguirei abafar a saudade
Finalmente esquecer o que já se desfez
E esperar, mesmo que uma eternidade
Apenas para te sentir outra vez



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