No domingo a noite, quando chegamos ao baile que ele havia me convidado, o local ainda estava vazio e, aparentemente, parecia que não iria encher. Relutei muito para ir dançar, minha timidez considerava essa possibilidade impossível. Portanto, pedi para que chamasse outra pessoa para dançar com ele. Havia uma amiga nossa da casa espírita que parecia estar interessada, mas ele disse que iria dançar apenas se fosse comigo.
Pouquíssimos casais dançavam no salão naquela noite um pouco fria. A sensação era que, se eu fosse dançar com ele, todos iriam olhar para a gente, e não para os outros casais. Mas, estava tão vazio, que nem havia tanta gente para ficar nos observando.
Pesei a timidez com minha vontade de dançar com meu príncipe charmoso, que me enviou aquela linda música romântica e resolvi ceder, depois de bastante tempo. Se ele fosse se abrir, teria que se sentir mais a vontade, e ele não estava nada à vontade com minhas recusas dos seus pedidos para lhe acompanhar numa simples dança de dois pra lá, dois pra cá.
Fomos para o meio do salão, próximo aos
outros casais, e começamos a dançar. Não me lembro a música que estava
tocando, mas era uma canção lenta e, embalados no ritmo, dançamos bem próximos,
com o rosto quase colado um no outro. A sensação de estar ali com ele era muito boa, me lembrava a magia da peça. Eu já
havia me imaginado em seus braços algumas vezes... “E sem
pensar muito, no ritmo daquela suave música, deslizei a lateral do meu rosto
lentamente até que ficássemos de frente, e com os olhos fechados, sentindo a
energia que percorria entre nós, naquele suave clima romântico, toquei seus
lábios com os meus...” Abri os olhos acordando do meu “devaneio”, ainda com a
lateral do meu rosto próxima à dele. Eu jamais teria coragem de beijá-lo ali
naquele local público, mesmo na presença de poucas pessoas. Se iniciássemos um
namoro, minha família teria que saber primeiro, e por ele ser bem mais velho,
eu nem imaginava qual seria a reação dos outros, principalmente do meu irmão.
Teria que me preparar psicologicamente primeiro. Meu coração e minha razão
haviam travado uma batalha. Por sorte a música logo acabou, eu disse que não queria mais dançar e ele me convidou
para bebermos alguma coisa.
Fora do salão bebemos algo não
alcoólico e algo "não refrigerante", afinal eu já era quase uma nutricionista, faltava "apenas" mais quatro anos para minha formação. Conversamos um pouco e eu disse que precisava ir embora, pois teria aula no outro dia de manhã. Antes de passarmos pelo salão em direção à saída, para minha surpresa, ele resolveu se abrir. Com coragem, falou-me
dos seus sentimentos, de suas boas intenções, e eu fiquei calada, sem saber o
que dizer. Naquele momento, eu não sentia mais vontade de beijá-lo, só
conseguia imaginar o que todos iriam pensar quando nos vissem juntos. Minha
mãe, nos seus últimos meses de vida, havia me falado que eu deveria me relacionar
com um homem mais velho. Até tentou “empurrar” alguns, mas não consegui me
interessar por nenhum. Não deu tempo de ela conhecê-lo, mas no fundo eu sabia
que teria sua aprovação.
Meu príncipe charmoso estava bem ali na
minha frente, de coração aberto, com as mãos segurando as minhas e com um olhar
apaixonado, mas eu não conseguia me concentrar nisso. De repente minha emoção
se misturou com a razão, fiquei confusa e tive vontade de fugir. De certa
forma, foi o que fiz dizendo a ele que precisava ir, mas que iria pensar na sua
proposta de namoro e depois daria a resposta.
Fora do clube, na pracinha de nossa
cidade, encontrei com meu irmão que estava me esperando para me levar para
casa. Ele me viu quando saímos junto e nos despedimos e, por sorte e pela minha
falta de resposta, não estávamos de mãos dadas e muito menos nos despedimos com
um beijo. E nem precisou, pois só de ter me visto junto com ele, meu "anjo protetor" denominado irmão mais velho, teve uma crise de ciúmes ao caminho de casa. Minha querida cunhada que conseguiu acalmá-lo um pouco. Naquela noite,
percebi que se eu resolvesse iniciar uma história de amor, iria ter que
enfrentar muitos desafios.
Estávamos a poucos dias do meu
aniversário, que cairia no meio da semana. Continuamos com nossos bate papos
virtuais após o baile e, no outro dia, após eu dizer que passaria meu
aniversário sozinha e sem comemorações, ele me convidou para jantar na cidade
vizinha. Gostei do convite e aceitei de imediato. Falei para meu pai e irmão que iria sair com
umas colegas da faculdade, enquanto na verdade combinei de encontrar com meu "príncipe". E após ter pensado muito, pesado pós e contras, resolvi que naquele
próximo encontro eu teria coragem de fazer o que não tive coragem de fazer no
baile: Entregar-me aos meus sentimentos.

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