Cap. VI – Meu vigésimo aniversário


         O combinado era de nos encontrarmos no shopping da cidade vizinha. O restaurante ficava próximo. Cheguei lá acompanhada da minha fiel companheira, a ansiedade. Atravessei passando próximo à escada rolante indo em direção à saída dos fundos e logo o encontrei, com o meu presente na mão. Cumprimentamo-nos e ele me entregou quatro cds gravados com músicas selecionadas por ele, sendo que um deles era do Roupa Nova com a “nossa música”. Esses cds me fizeram companhia por muitas noites, nas quais dormia ouvindo as românticas melodias. Agradeci o simples presente do meu “príncipe charmoso” e fomos para a pizzaria. A pizza foi minha preferida, de frango com catupiri. Não sei se é pelo fato de ter sido a primeira, mas essa continua sendo nossa primeira opção até hoje. O restaurante estava bem vazio, talvez por ter sido dia de semana, o que foi ótimo, pois ficamos bastante à vontade para conversarmos.
    Respondendo ao meu enorme interrogatório, ele me contou tudo sobre sua vida atual e sobre seu antigo casamento, o qual chamava de “vida passada”. E a cada momento em que eu conhecia mais sobre ele, mais me encantava e mais me assustava com a dificuldade que seria iniciar um relacionamento que iria contrariar muitas pessoas. Mas, depois de tudo o que eu havia passado, a única coisa que me importava era o meu sentimento, ou melhor, os nossos sentimentos, pois eu já sabia que era recíproco, embora ele ainda não soubesse.
       No meio da nossa agradável conversa e da saborosa pizza, passou uma moça vendendo botões de rosas dentro do restaurante. Ele então me presentou com uma rosa vermelha, o que me deu ainda mais coragem para me abrir sobre meus sentimentos, embora ainda não soubesse como iria fazê-lo. Terminamos de comer a pizza e fomos passear em uma praça que ficava lá perto. Caminhamos contornando um chafariz sentindo o terrível frio de início de inverno daquela cidade do interior. Mas eu não conseguia me concentrar mais na conversa e muito menos no frio, pois estava tentando imaginar uma maneira de driblar minha timidez e dar a resposta tão esperada a ele. Paramos próximo a um banquinho quando ele puxou o assunto. Para minha sorte não precisei iniciar aquele assunto, apenas responder.
- Pensou no meu pedido? – Ele me perguntou após tomar coragem.
- Sim.
- Qual é a resposta?
- Acho que você já sabe... Senão eu não estaria aqui com você. – Juro que não consegui pensar em nada melhor para dizer diante de tanto nervosismo. Pelo menos falei sorrindo, o que fez com que ele também sorrisse. Mas sua expressão foi de surpresa. Ele confessou que já estava preparado para um “não”, e como não havíamos tocado no assunto antes, já tinha se conformado apenas com minha amizade. E naquele momento, eu também fiquei surpresa com seu pessimismo. Eu não sabia que minha timidez passava a impressão de eu ser uma pessoa extremamente difícil.
        Após minha resposta indireta, ele se sentiu mais à vontade e perguntou se podia me beijar. Eu consenti e, muito sem jeito, encaixando a fantasia na realidade, aconteceu nosso primeiro beijo. Um beijo que, Deus do céu, foi um desastre! Constatei naquela hora que ambos estávamos bastante destreinados. A partir de então passamos a treinar bastante. E a lembrança deste mágico momento, gerou esta crônica:

Sabe aquele amor?
Sabe aquele amor que quando encontra a pessoa pela primeira vez tem a impressão de reencontro? Como se já se conhecessem durante milênios? Onde o primeiro abraço causa a sensação de que um corpo se misturou no outro e no primeiro beijo os lábios se encaixam e as línguas se acariciam perfeitamente? Sabe aquela sensação de total sintonia? Então... Eu não sei. Não conheço. Nunca vivi. Apesar disso, acredito que ela exista sim na vida real, além das novelas.
Mas acredito principalmente naquele amor que se constrói a cada dia, que surge e aumenta a cada momento de convivência. Aquele que o primeiro abraço é tímido e até frio de tanto pudor. Aquele em que o primeiro beijo é um horror, mas que melhora com a prática. Aquele que deixa o corpo estático na hora que tem que agir, e as coisas nunca saem conforme se imagina. Aquele em que a gente precisa aos poucos encaixar a fantasia na realidade, e assim criar uma história de verdade, onde se vivencia o que antes só existia na nossa mente.
Apesar de parecer o contrário, acredito que o segundo seja mais profundo que o primeiro, além de ser o mais comum.  Um relacionamento que já começa perfeito é um sonho lindo, e até acredito que seja usual em outros mundos, mas nesse em que conheço não é. E talvez a maior graça divina dos relacionamentos, e o maior objetivo, seja tentar alcançar a perfeição juntos, no entrelaçar de nossas vivências e desafio das convivências.

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