Cap VII – Gaivotas no céu


“O tempo passou, mas o sentimento ficou
Assim como a saudade de afagar seus cabelos
De poder te abraçar e contemplar teu sorriso terno
De massagear seus pés com meias em noites de inverno
De cuidar de você e não deixar a solidão atormentar
E ouvir cada palavra sensata e que acalma
Vinda de uma grande alma
O tempo passou, tudo mudou
A vida não é a mesma, as pessoas não são as mesmas
A cidade não é a mesma, nem a casa é a mesma
A convicção não é a mesma, nem eu sou a mesma
Mas o coração é o mesmo
Que porta toda nossa história escrita
Mesmo não sendo de papel
E enquanto não parar de bater
Para que eu possa perto de você viver
Vou me apaziguar ao contemplar
Como aquele seu último olhar
As gaivotas no céu”       

                Nenhuma palavra, nem verso, nem toda poesia do mundo poderiam expressar o sentimento que ocorreu em um momento naquele seu último passeio. Uma “viagem” de cinco a dez minutos até minha faculdade. Meu pai dirigia o carro e eu, no banco de trás, observava pelo retrovisor a feição de minha mãe. Sua aparência estava abatida devido ao estágio terminal da doença. Ela usava uma toquinha que escondia a falta dos cabelos, e seus grandes olhos verdes se destacavam ainda mais no rosto magrinho. De repente, observei que ela olhou para cima admirada como se estivesse vendo algo pela primeira vez. Eram gaivotas voando em bando, formando desenhos no ar, preenchendo uma bonita paisagem, composta pelo céu azul e o verde das montanhas. Seus olhos se encheram de lágrimas, refletindo toda emoção que sentia naquele simples momento. Ela no fundo sabia que, apesar de parecer ser a primeira, aquela seria a última vez que iria contemplar os pássaros. E a impressão que dava era que ela queria apenas ser um deles. Se libertar de todo sofrimento e da tristeza de estar vivendo num corpo doente, não por sua própria dor, e sim pela dor causada naqueles que tanto a amava, pois essa dor de ter que partir e nos deixar superava qualquer dor física.

                Antes dos tratamentos de quimioterapia, minhas mãos pareciam ter um imã para os cabelos dela. Eram lisos, fininhos e sedosos. Assim como eu admirava seus cabelos, ela admirava meus cachos, e sempre brincava dizendo que queria trocar de cabelo comigo. Ah como era bom abraça-la e contemplar seu sorriso que transparecia sua grande alma através do olhar. Ah como era bom ouvi-la cantar, era um sinal que sua alma estava bem viva, apesar do corpo já quase falecido. Como era bom aplicar-lhe o reiki para que relaxasse, assim como as massagens nos pés antes de dormir. De mãe ela se tornou, por momentos, filha, a qual eu pude cuidar retribuindo um pouquinho do amor que havia recebido, a qual eu pude ensinar o pouco do conhecimento espiritual que me foi concedido, a qual eu pude ser um pouco da força que ela precisava para vencer resiliente até seu último suspiro.

         Eu não sei o que se passou em sua mente naquele momento em que observava as gaivotas, fiz apenas suposições. Mas sei que, para mim, enxergar, ou melhor, admirar as gaivotas no céu, passou a ser um dos momentos mais bonitos e preciosos pelos quais eu consigo passar, pois nessas horas percebo vivo, em mim, o seu olhar.


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