Minha
vida sempre fugiu dos padrões “normais”. Nunca me importei tanto com os laços
de sangue, embora tenha uma ligação muito forte com minha família, como se cada
um deles fossem um pedaço de mim. Talvez por isso meu sonho de infância não era casar e ter filhos, e sim construir uma vida onde eu pudesse fugir do modelo padrão e fazer
o que considero uma das maiores caridades do mundo, ser mãe de coração. Sempre imaginei “ter” uma criança já um pouco
mais velha e que sonhasse com uma família. Alguém que pudesse vislumbrar em mim
a realização de um sonho que parecia perdido.
Ter
filhos de sangue faz parte da nossa natureza, da perpetuação da vida e do amor.
E quando a gente ama alguém, tudo o que mais queremos é “eternizar" a
pessoa amada em outro ser. Mas, em mim, essa natureza nunca falou muito alto. Talvez
por isso não me importasse com a diferença de idade entre eu e meu “príncipe
charmoso”. Eu sabia que, mesmo que tivesse em nossos planos ter filhos
biológicos, eu conseguiria criar laços de coração com os filhos dele, que
quisessem conviver com a gente.
Em
abril de 2009 nos casamos. Eu usei um vestido rosa salmão e, mais uma vez, fugi
dos padrões. Como não somos católicos, fizemos um pequeno culto espírita. Foi
uma cerimônia bem simples, com um jantar para familiares e amigos. Infelizmente
não conseguimos convidar todos os nossos amigos e conhecidos, devido à situação
financeira, mas sou eternamente grata a todos que torceram pela nossa união.
Eu
estava extremamente nervosa antes de chegar ao local, não pela cerimônia em si,
mas pela surpresa que eu havia programado fazer: Cantar a música “From This Moment”
junto com a banda que eu havia ensaiado apenas umas duas vezes, com metade dos
integrantes.
No
mesmo local que meu príncipe charmoso havia se declarado para mim, após
dançarmos naquele primeiro baile que fomos juntos, quatro anos depois eu estava
lá para cantar para ele e para todos os convidados, no meio do nosso casamento.
Sorte minha que o vestido era rosa, assim o rosto ruborizado pelo menos
combinava com a cor. “O que eu fui inventar? Será que não dá para fugir?!”
Pensava a todo o momento antes de entrar, suando frio. Minha timidez queria que
eu sumisse dali, não para não precisar casar, e sim para não precisar cantar!
Mas não dava mais tempo, então eu entrei ao lado do meu pai ao som de uma linda
música que eu nem ouvi direito, pois só conseguia pensar na “From This Moment”,
que eu iria apresentar para ele e para a maioria dos convidados, que nem
imaginavam que eu teria tanta coragem.
De
certa forma, o pequeno culto antes do jantar me tranquilizou um pouco, com
sensatas palavras de um grande amigo e da minha sogra, que eram presidentes da
casa espírita que frequentávamos, na época. “Temos que tomar cuidado quando o
que incomoda mais em um relacionamento são as qualidades do outro e não os
defeitos...” Ela disse. Apenas aqueles que nos amam de verdade se sentem confortáveis
e felizes com nossas conquistas e realizações. Sábias palavras que servem tanto
para relacionamentos amorosos quanto para amizades. Algumas pessoas estarão por
perto quando estivermos tristes, mas não suportarão ver os nossos sorrisos e as
nossas vitórias.
Uma
coisa que descontraiu o casamento foi a engraçada e inesperada cena da minha
sobrinha, um anjinho de dois anos e quatro meses na época, entrando com as
alianças, após muito custo, e as jogando em cima de mim, ao som da música do
filme “Missão impossível”. Havia um tapete vermelho, mas ela não queria pisar
nele de jeito nenhum, ela só queria se livrar logo daquela inusitada situação.
Apesar dela não ter me entregado as alianças de uma forma confortável, foi a
cena mais fofa do casamento. Naquele momento, tive vontade que o mundo parasse
ali na imagem daquela bonequinha entrando e vindo em minha direção com as
nossas alianças. Abençoada seja a câmera digital!
Mas,
o mundo não parou ali como nas fotos, infelizmente, e assim que terminou a
cerimônia, tive que subir ao palco para cantar. Minha sorte foi que, devido ao
clima harmonioso, mesmo com o som ruim e minha voz tremida de nervoso, as
pessoas se emocionaram e adoraram a surpresa. Aplaudiram bastante e continuaram
comentando depois por muito tempo. Ufa! Passado o momento da surpresa que foi
muito mais improvisada do que ensaiada, consegui finalmente relaxar a
confraternizar com os convidados.
No
outro dia do casamento, viajamos para Maceió. Com o dinheiro da gravata do
noivo, arrecadado pelo meu enteado e sua prima, conseguimos pagar os passeios
inesquecíveis por alguns lugares de Alagoas. Eu não sabia que gravata de noivo
dava tanto dinheiro, senão teria arrumado pelo menos umas três para ele.
Alguns
meses após o casamento, meu enteado e sua namorada chegaram a nossa casa
assustados, com algo sério para nos contar. Para descontrair o clima tenso,
antes que eles falassem, tentei quebrar um pouco o gelo, mesmo sem ainda saber
do que se tratava.
- Não vão dizer que serei avó!
Então,
em 2010, outro anjinho chegou a nossas vidas, a qual posso chamar de neta e ter
o privilégio de ser chamada de “vovó”.
Hoje,
ainda não adotei uma criança, mas posso dizer que sou madrasta, avó e até
sogra. São presentes que vieram junto com o meu príncipe. Sinto-me grata com o
que a vida me reservou. Além dos profundos laços de sangue com pessoas tão
especiais, a emoção do meu casamento também me presenteou com profundos laços
do coração.

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