Cap. IX – Síndrome "tripolar" (Ansiedade, pânico e depressão)


      Eu tinha uns 11 anos de idade quando tive minha primeira crise. Em uma bela tarde, estava no quarto dos meus pais sozinha cantando de frente para o espelho, como de costume, uma música do filme “Sonho de Verão”, meu predileto na época. De repente, no meio da música, olhei dentro dos olhos da imagem refletida no espelho e não a reconheci. Nessa hora, o pânico tomou conta de mim, meu corpo ficou leve, como se minha mente tivesse saído dele, e tudo ao meu redor parecia um sonho, uma fantasia, uma pintura, ou qualquer outra coisa bem diferente da realidade. Naquele momento eu não fazia ideia de quem era a pessoa refletida no espelho e nem o que era real, não sentia mais meu corpo. Uma consciência individual estava ali, mas minha identidade não. Eu só sabia que era, de longe, a sensação mais esquisita e aterrorizante que eu já havia sentido. A minha “perda” da identidade e da realidade durou no máximo 1 minuto, mas foi tempo suficiente para que ficasse registrado para o resto da vida. Desci as escadas correndo, ainda como se estivesse num sonho, eu precisava ver alguém e me certificar de que não estava ficando maluca. Atravessei a sala, a cozinha, e, finalmente, cheguei à área de serviço, onde minha mãe estava passando roupa e conversando com meu irmão. Quando os vi, consegui voltar a respirar e tudo foi voltando ao normal tão rápido como começou. Lembro-me de ter contado a eles que senti algo estranho, mas não aprofundei o assunto porque provavelmente eles não entenderiam. Não há palavras para definir uma sensação tão esdrúxula, ainda mais para uma criança de 11 anos. A partir de então, o medo de sentir de novo tal sensação passou a fazer parte da minha vida.
         Após 9 anos do falecimento de minha mãe, finalmente percebi que não conseguiria me curar do trauma de sua doença sem ajuda médica. Já estava usando medicamentos naturais e homeopáticos desde um ano após sua partida, que fizeram efeito por um tempo, mas nunca me livraram dos momentos de pânico, das noites mal dormidas, enfim, da ansiedade generalizada que já fazia parte de mim como algo natural, quase que fisiológico, sem eu perceber que tais sintomas não eram normais.
         Em uma manhã comum, após uma noite praticamente sem dormir, o sono e o desânimo tomaram conta do meu corpo e não consegui levantar para ir trabalhar. Foi como se eu estivesse me desconectado do mundo. Nesse dia, percebi que o profundo “desânimo” não ocorria apenas nos dias de semana, em que eu precisava trabalhar, mas, principalmente, aos finais de semana. Eu não conseguia ter motivação nenhuma para levantar da cama, e saía dela contra a vontade às 12h aos sábados e domingos apenas porque tinha que almoçar e fazer algo ao longo do restante do dia, que não dava para fazer em dias da semana, como colocar roupa para lavar, etc. Tarefas bastantes “animadoras”. Minha vontade então era de dormir o dia todo. "Depressão", essa palavra me veio à cabeça. Lembrei-me de um momento em que eu havia passado algumas semanas atrás, em que ao receber do meu marido uma notícia que um conhecido nosso havia tido um infarto fulminante, pensei: “Que sorte, não vai mais precisar viver nesse mundo...” Esse pensamento me incomodou no momento, tentei focar em outra coisa e acreditar que ele não fazia parte de mim, ou que pelo menos não poderia fazer, pois vai de encontro a tudo que eu acredito. Mas esse sentimento fazia parte de mim sim, e em alguns momentos ele surgia. Então, naquele dia, cheguei a conclusão que precisava ser tratado. Foi quando marquei o médico que temi marcar durante aqueles nove anos. “Ele vai te receitar drogas pesadas” as pessoas me diziam, e naquele dia então pensei: “E daí? Eu já tomo drogas pesadas para dormir de vez em quando, e ultimamente havia se tornado de vez em sempre.” Finalmente fui ao médico que eu já havia ensaiado ir fazia tempo. O que atendia no meu bairro ainda dava para marcar para o mesmo dia com sorte. Tive “sorte” então, consegui marcar e fui ao temido psiquiatra.
- Em que posso ajudar? – A pergunta foi mais ou menos essa. Igual a de todos os outros médicos “normais”.
- Tenho ansiedade generalizada. Um médico homeopata me diagnosticou com esse problema. Eu fazia tratamentos com homeopatia e remédios naturais, mas devido à distância depois que me mudei para cá, não tenho mais ido nele.
- Percebeu melhora com a homeopatia?
-No inicio sim. Mas continuo com os sintomas de ansiedade às vezes...
- Normalmente esses remédios não fazem efeitos por muito tempo mesmo... - Ele respondeu obviamente defendendo o lado alopático, mas sem interferir muito na crença do homeopático. – A ansiedade pode ser algo natural ou uma doença... Precisamos saber até que ponto é normal... A ansiedade é necessária para sobrevivência... Vou dar um exemplo dos peixes no mar... – Sua voz era completamente lenta e suave. – Os tubarões, por exemplo... Percebe como eles nadam?...Eles quase não se movimentam... Nadam tranquilos... Sem pressa... – “Assim como você está falando? Não da para falar mais rápido e ir direto ao assunto?” – Pensei. 
Percebi então o quanto eu estava, ou melhor, o quanto eu era ansiosa para chegar rápido ao final de tudo. Eu queria chegar logo ao final da consulta com a receita do meu medicamento tarja preta, sem enrolação. Naquele momento cheguei a pensar que era o médico quem tinha problemas por ser tão tranquilo e não eu por ser tão agitada internamente. Minha cabeça estava a mil km por hora e as palavras dele a dez km por hora. E ele continuou:
– Já os peixes pequenos... percebeu como eles nadam rápido?... Se debatendo... Sempre com medo de serem devorados pelo tubarão... Precisam estar sempre atentos para sobreviverem... Essa “ansiedade” faz parte do seu instinto de sobrevivência... - Eu o ouvia também calmamente, aparentemente. 
No começo da conversa pensei que estava falando algo sem sentindo, mas no final entendi onde ele queria chegar com a história dos peixes.
- O que você sente que mais te incomoda? – Ele me perguntou.
- Insônia. Estou passando por um momento de reestruturação no trabalho e estou tomando alprazolam para conseguir relaxar e dormir.
- Qual dosagem? – Ele fez uma cara de não muito satisfeito.
- A mais baixa. Não tomo sempre, ultimamente que tenho usado todos os dias.
- Quem te prescreveu? E há quanto tempo mais ou menos está tomando direto?
- Um gastro me prescreveu há muito tempo para tomar como SOS nas minhas crises de gastrite nervosa. Ele me receitou um natural também. Então eu tomava o natural todos os dias, e nas crises tomava o alprazolam. Ultimamente, como estou com muita insônia, andei usando o ansiolítico por uns dois meses durante a semana...
- Vamos tirar esse remédio. Ele não é bom, causa dependência e não vai curar sua ansiedade.
“Como assim tirar? Vim aqui querendo uma receita do tarja preta, pois o meu está acabando, e ele quer tirar? Vai me prescrever o que então?” – Pensei.
- O que mais você sente?
- Despersonalização.
- Descreva o que é isso.
“Ele não sabe??” Descrevi para ele o episódio do espelho, disse que desde então tive algumas outras crises e isso me impedia de fazer algumas coisas, como dirigir por exemplo. Tive crises de pânico também, dessas que a gente acha que está infartando, o coração acelera, tudo escurece, falta ar... Mas no fundo a gente sabe que é apenas coisa da nossa cabeça.
Ele me disse então o nome do remédio que iria me prescrever e me explicou como ele agiria no meu organismo. Explicou que normalmente a ansiedade generalizada é causada pelo desequilíbrio dos neurotransmissores, como a serotonina, no cérebro. E me receitou um antidepressivo que também age como ansiolítico, um medicamento novo com poucos efeitos colaterais, e que age apenas nos receptores da serotonina. Ele me explicou que eu deveria tirar o tarja preta também gradativamente. Receitou-me então um em gotas, que não me adaptei devido ao enjoo, e voltei a usar o velho alprazolam que não me dava reações adversas (não que eu soubesse).
    Claro que não comecei a usar o tal antidepressivo no mesmo dia que fui ao médico, nem na mesma semana. A ideia de usar dois remédios controlados associados, mesmo sendo apenas por um mês, me deixava com medo, e o tarja preta que ele me receitou para usar por um mês também era um remédio novo para mim. Seriam dois novos e o medo das reações adversas era enorme. Guardei então a receita até resolver se iria fazer o que o médico falou ou não, ou se iria apenas parar de tomar o tarja preta quando eu achava que devia, como já havia feito outras vezes. “Será que vale a pena começar a tomar antidepressivos? As crises não ocorrem sempre.” Eu repetia isso para mim mesma e para os familiares mais próximos.
       Até que, em um domingo (óbvio que não poderia ser outro dia), véspera de uma semana de trabalho que seria cansativa e desanimadora, e depois de ter voltado para casa após uma viagem à casa do meu pai em outra cidade, antes de dormir tive uma crise. Foi um pouco diferente das que eu já havia sentido há anos atrás. Das outras vezes, a crise demorava um pouco, mas passava. Sumia da mesma forma que havia surgido. Mas, dessa vez, senti uma angústia muito forte e não conseguia parar de chorar. Percebi que as horas passavam e a angústia, o choro, a irritação e a vontade de “sumir” não cessavam, então resolvi tomar um alprazolam, e só consegui dormir após o efeito calmante do remédio.
No outro dia eu estava disposta a iniciar o tratamento com o antidepressivo. Definitivamente, eu não queria mais sentir o desânimo que estava sentindo e queria me livrar dessas crises de angústia sem nenhum motivo aparente, assim como das crises de pânico, ansiedade, e insônia que me acompanhavam desde a infância.
   Escitalopram, mais conhecido como Exodus, foi meu primeiro antidepressivo, e valeu como experiência.  Consegui tomá-lo por duas semanas, no máximo três. Me senti muito melhor da ansiedade, mas os efeitos colaterais acabaram comigo. Claro que pesquisei bastante na internet sobre o medicamento antes do começar a usar, além de ter buscado uma segunda opinião, de um outro médico (ainda mais "louco") que me acompanha até hoje. Um blog que me ajudou muito foi o “Idiota feliz”. Realmente, era dessa maneira que eu estava me sentindo.
    Após duas tentativas medicamentosas, a terceira finalmente deu certo. Um antidepressivo que age nos receptores da melatonina (hormônio do sono), ou seja, próprio para insônia. Quase não tive efeitos colaterais. Apenas no primeiro dia que senti muita sonolência, apagões (que fez com que uma colega do trabalho ficasse rindo horas da minha cara), taquicardia, falta de apetite (pena que foi só no primeiro dia), enjoo e sensação de ser um zumbi. Nada de mais. Nada que eu já não tenha sentido nas crises de ansiedade com uma intensidade ainda maior. Valeu a pena insistir, no segundo dia já não senti mais nada. Após três semanas de medicamento, posso dizer que o efeito sobre o sono ainda estava muito fraco, apesar de ter melhorado, mas ativou um pouquinho o sistema “dane-se”. Era exatamente desse equilíbrio que eu estava precisando.
       Equilibrar o nível de preocupação diária não tem preço. Comecei a perceber o quanto aos outras pessoas são ansiosas e vivem com pressa, do jeito que eu estava no dia da primeira consulta com o psiquiatra. Hoje não tenho mais pressa para nada, apenas para comer quando estou com apetite.
       Há um tempo, viajei a trabalho para fazer um curso. No primeiro dia, quando desci do metrô, consegui perceber a pressa das pessoas subindo as escadas para chegarem ao trabalho e pensei “Caramba! Será que isso tudo é motivação para trabalhar?” Claro que não, isso tudo é apenas ansiedade, imperceptível pela maioria, assim como era para mim. As pessoas ligam o automático, se esquecem do mundo ao redor, focam apenas na correria que imaginam ser normal no dia a dia, e nada mais importa além de chegar rápido ao seu destino imediato. Infelizmente, nem todas conseguem “acordar” para a verdadeira realidade.






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