Cap. XI - Eu sensitivo


                “Será eu que sinto de mais ou os outros que sentem de menos? No controle das emoções tento encontrar minha paz.”

                Viajei desanimada pensando que seria apenas mais um curso que pouco me acrescentaria, tanto na vida profissional quanto na pessoal. Porém, o curso de dois dias, ministrado por uma psicóloga, transcorreu num clima dinâmico e descontraído, além de ter sido, para os interessados, uma boa oportunidade de adquirir um pouco de autoconhecimento.

                Após um teste de identificação dos “Eus” (Racional, protetor, experimental e sensitivo), meu resultado foi o que já era esperado: Sensitiva. O “Eu” do relacionamento, do sentimento, da empatia e, claro, do sofrimento.
                - Você se sente só? – A instrutora me perguntou ao constatar que, de uma turma de trinta pessoas, eu fui a única a obter maior pontuação no Eu sensitivo.
                - Sim. Já estou acostumada. – Respondi com um sorriso de conformação.

                Então consegui entender o motivo das pessoas terem tanta dificuldade de trocar a competição pela colaboração, tema principal do curso de negociação. Uma boa parte obteve maior pontuação no Eu Racional, o contrário do Eu Sensitivo. Em uma turma onde predominavam Engenheiros (Área de Exatas), era de se esperar. Que fique claro que um não é melhor do que o outro, é apenas o oposto. O ideal seria o equilíbrio entre os quatro “Eus” nas pessoas.

                Ao final do curso, no intuito de fugir da rotina corrida do mundo onde predomina o Eu racional, fui passear um pouco no parque do Museu da República, que ficava ao lado do hotel que eu estava hospedada. Um lindo lugar com uma energia incrível, onde dá vontade de ficar e não mais ir embora. Próximo à saída havia uma turma da terceira idade “fazendo um som” com voz, cavaquinho, violão, percussão, e uma pequena plateia, num clima harmonioso e convidativo para ficar. Mas, eu fui embora... E ao chegar ao hotel pensei: “Por que não voltar?” Então, tirei o salto, tomei um banho rápido e voltei ao parque para apreciar não só a boa música, mas a energia daquelas pessoas “fazendo arte”. Não me senti muito à vontade, pois o mais novo deveria ter o dobro da minha idade, mas consegui ficar tempo suficiente para acalmar o coração após um dia estressante de trabalho, me lembrar de momentos bons, nessa simples atitude que poucos compreendem o sentido. Apenas os sensitivos conseguem saber, ou melhor, sentir.

                O grupo parecia grande, mas como os cantores estavam na pequena plateia não dava para mensurar. A cada música um levantava da plateia para cantar, num harmonioso rodízio musical de canções antigas, as quais eu conhecia a maioria, pois cresci ouvindo meu pai tocar e minha mãe cantar. Ah! Que vontade que fiquei de levantar da cadeira e cantar alguma música, como “fascinação”, por exemplo! Então eu me levantei da cadeira e perguntei ao violonista se ele tocava fascinação. Ele consentiu, começou a tocar e os outros foram acompanhando. Cantei emocionada e lembrei-me de minha mãe cantando, como se ela estivesse ali ao meu lado:

Os sonhos mais lindos sonhei
De quimeras mil, um castelo ergui
E no teu olhar, tonto de emoção,
Com sofreguidão, mil venturas previ
O teu corpo é luz, sedução
Poema divino cheio de esplendor
Teu sorriso quente, inebria, entontece
És fascinação, amor

Foi fascinação sim, eu sei
O que eu senti quando você me olhou
E o meu coração cheio de emoção
Bate mais depressa na sua presença
Seu sorriso encanta e seduz
Seu olhar tão lindo tem raios de luz
Mas eu sei que tudo não passa de um sonho
É fascinação de amor

                Então acordei do meu devaneio e percebi que eu permanecia sentada na cadeira escutando uma senhora cantar. Claro que a timidez não deixou que eu participasse daquela linda roda musical.

                Na manhã do dia seguinte, resolvi aproveitar as últimas horas na cidade maravilhosa antes de retornar para casa, fazendo mais um breve passeio naquele parque. Sentei em um banquinho em baixo de algumas árvores, e comecei a escrever esse “capítulo” ao som suave dos pássaros. É preciso tão pouco para termos momentos de felicidade. Em contato com a natureza percebemos que fazemos parte de um todo. No observar do verde que me cercava, dos patos que nadavam no rio, da melodia dos passarinhos, do procurar incessante dos pombos, das crianças que brincavam maravilhadas com os animais, e dos casais de namorados que andavam de mãos dadas, senti-me leve e feliz. Mas para conseguir enxergar o que há por trás da simplicidade é preciso ser sensitivo, ou melhor, encontrar o “Eu” sensitivo que habita em cada um de nós. Onde os “Eus” sensitivos estão? O mundo precisa de nossas histórias, de nossas emoções, dos nossos dramas, da nossa intensidade ao sentir, da nossa empatia ao reagir.

                Que na rotina diária, na corrida contra o tempo, cada um de nós possa reservar um momento para si, e interagir com a natureza, com a arte, com o próprio “Eu”, independe de qual for, ou de quais forem. E, nessa busca acelerada, darmos conta que somos o que se pode levar da vida, quanto ao resto apenas estamos. O que se costuma valorizar fica. Que no equilíbrio do sentir encontremos o verdadeiro sentido, nem de menos e nem de mais, apenas o suficiente para encontrarmos um pouco de paz.



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