Cap XII – Base das amizades



                As melhores amizades surgem de momentos inusitados ou conturbados. Às vezes, o que tem tudo para dar certo dá errado, e o que tem tudo para dar errado, dá certo.

                Principalmente na adolescência, fase onde começa nossa carência de companhia, queremos muito fazer parte de círculos de amizades, mas para os tímidos (como eu) a amizade real é um sério problema, pois não temos muita capacidade de interagir. Olhar nos olhos do outro é difícil demais, conversar então é quase impossível. Então, foi lendo uma revistinha teen, aos quatorze anos de idade, que tive a “brilhante” ideia de ter amigos à distância, assim eu não precisaria olhar nos olhos e muito menos falar com ninguém, apenas escrever. Juntaria o útil ao agradável. Como naquela época ainda não existia internet, pelo menos não tão acessível, recorri à revista e enviei um recadinho na página de correspondências que logo foi publicado: “Olá. Tenho 14 anos, olhos castanhos, cachinhos dourados e desejo me corresponder com pessoas de todo o Brasil.” Não sei se foi por conta do inocente “cachinhos dourados”, mas na mesma semana em que foi publicado o recado, minha casa choveu de cartas de pessoas de todo  o Brasil, principalmente de garotos da minha idade. Eu então escolhi algumas que mais me agradavam para tentar amizade à distância, depois de ter levado uma bronca dos meus pais, claro, que até então não sabiam do ocorrido. Como o “estrago” já estava feito, eles liberaram as correspondências, supervisionadas por mamãe obviamente. Ela me ajudou a escolher e respondi cartas de várias pessoas, mas apenas duas permaneceram e tornaram amigos por um breve tempo.

                Um deles tinha a minha idade mais ou menos, ele era sensível e carinhoso, tinha um modo de escrever muito parecido com o meu, era de São Paulo e assinava as cartas como Elias. Como era bom receber as cartas de Elias! Eu lia e relia e me encantava com aquela pessoa que não conhecia nem por foto. Ele havia realmente se tornado um amigo e escrever para ele me trazia alegria, até o momento bombástico, onde Elias revelou ser Eliane. “Como assim?!” Não lembro qual foi minha reação ao ler a única carta sincera que ele (a) havia escrito (tenho a sorte da memória apagar quase todos os momentos ruins da minha vida), mas me lembro de ter perdoado essa primeira mentira virtual (ainda por cartas) devido à coragem e arrependimento de Elias/Eliane, ao ter me revelado sua verdadeira identidade. Assim como eu, ela apenas queria uma amizade para desabafar e partilhar momentos. Não mediu as consequências dos seus atos ao mentir, e depois sua lealdade falou mais alto. Então juntas passamos por cima daquele momento conturbado e prosseguimos com a amizade (só que de menina para menina), por mais um bom tempo. Perdemos o contato, mas se o destino cruzasse nossas vidas hoje, acho que seríamos ótimas amigas.

                O outro correspondente que marcou era da minha cidade natal, Rio de Janeiro. Suas cartas pareciam um sonho, muito bem escritas, letra perfeita, rebuscado, poeta, músico, enfim... Um homem perfeito para uma mulher e não para uma menina de quatorze anos! De todos, ele foi o que mais me chamou atenção, mas ele era treze anos mais velho do que eu. Eu teria que esperar pelo menos mais quatro anos na época para me encontrar com ele e ter algo real, mas ele não estava muito disposto a esperar. E em poucos meses, uma amizade que tinha tudo para dar certo devido às afinidades, se perdeu devido à diferença de idades. O que foi ótimo, pois hoje me pergunto o que leva um homem de vinte e sete anos a querer conhecer uma menina de quatorze. Infelizmente não há muitas respostas plausíveis para essa pergunta.

                Pouco tempo depois, a internet passou a fazer parte da minha vida, então os correspondentes de cartas foram trocados gradativamente pelos virtuais. Dentre encontros do mIRC e chats do UOL, reservados e coletivos, no shopping da cidade próxima a que eu morava, não cabe destacar nenhum, nem o que resultou num namorico do “traumatizante” primeiro beijo. Caberia relembrar talvez a época que me cadastrei no site de relacionamento “par perfeito”, no qual consegui levar para a realidade algumas amizades, mas que não passaram de poucos encontros. É difícil fazer amizade com quem busca apenas romance e, na época, devido aos problemas familiares que estava enfrentando (doença da minha mãe), eu realmente estava precisando de uma verdadeira amizade. Poderia até virar um romance depois de algum tempo, mas ninguém estava disposto a esperar. Então, depois do primeiro ou segundo encontro real, ao perceberem que eu não poderia, ou não queria, ser o par perfeito naquele momento, eles se afastavam.

                No terceiro ano do segundo grau, aos dezesseis anos, onde cursei a noite em uma nova turma na escola técnica que me formei, conheci um amigo, dos pouquíssimos que tenho até hoje. Esse tinha tudo para dar errado. Já no primeiro dia tive que dar um “fora” nele. “Como assim ficar com você? Estamos num colégio ou numa boate?!” Pensei. Achei aquilo um absurdo, ainda mais porque eu tinha namorado. Mas logo o mal entendido se desfez, fomos melhores amigos durante todo aquele ano e hoje ele é como um irmão para mim. Ele também se casou, tem um filho lindo, sempre me ajuda quando preciso, e vice versa. Foi bom ter insistido em algo que parecia ter tudo para dar errado no começo.

                Naquela época do segundo grau eu estava com meu primeiro namorado. Tínhamos bastantes afinidades, exceto uma das mais importantes, a religiosa. Então teve um momento que ele teve que escolher: Eu ou a religião. Foi bom enquanto durou. Ele foi importante na minha vida, aprendemos muitas coisas juntos, fomos amigos além de namorados e vivemos ótimos momentos de afeto.  Após cada experiência ficamos mais exigentes e, após essa primeira, um dos quesitos básicos para o próximo relacionamento era: ser da mesma religião. E o que se procura acha, quando se vai ao lugar certo. Foi assim que encontrei o segundo namorado, que logo se tornou marido (meu “príncipe charmoso”).

                Não tenho tantas experiências no ramo da amizade, mas acredito que ela possa existir sim entre homem e mulher, mesmo sendo complicado no início por conta da “tensão sexual” que surge às vezes, o que é extremamente natural. No dia mais triste da minha vida, no velório da minha mãe, quem esteve ao meu lado segurando minha mão até o último momento, não foi um namorado e sim um querido amigo. Alguém muito especial que quase não tenho mais contato, mas que estará sempre guardado nas minhas lembranças, e que serei eternamente grata.


                Independente do tempo de compromisso ou apenas vivência com as pessoas, algumas marcam, ficam eternizadas dentro da gente. E a sintonia faz com que cada reencontro retome ao ponto anterior. Passamos por fases em que precisamos nos afastar, independente de qual for o motivo, sejam por décadas, anos, ou meses. Mas o que se criou com a intimidade não se perde, fica guardado e deixa saudades. Pois nossa vida é construída a partir da base das amizades.


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