Depressão
é desconexão com a vida. Não é tristeza, nem angústia. Antes de tudo, é vazio
que nada preenche, onde não há sentido o sentir, onde não há sentido o existir.
Assim
como muitas pessoas, eu também enxergava a depressão com “pré-conceito”, tanto
que só descobri e aceitei após muitos anos dos primeiros sintomas. O corpo
deitado na mesma posição e a vista estática em uma só direção por minutos,
horas... Era então encarado por mim como algo comum, pois depois de um tempo eu
sempre voltava para o estado “normal”. Como naquela época não existia internet
acessível, as pessoas ainda não se autodiagnosticavam.
A
angústia de chorar por “nada”, até esgotarem as lágrimas, é apenas um dos
sintomas de depressão, causada pelo vazio emocional. A depressão normalmente se
instala após um trauma como o que eu passei na adolescência. Não é apenas uma
tristeza profunda, é a falta de motivação, de um objetivo, de um sonho a ser
alcançado, de uma visão no futuro, causado por uma desconexão conosco mesmo,
com nossa “missão”, o que faz com que nos desconectemos também dos outros e de
tudo que há na vida. Por isso destaco sempre a importância de sonhar, sonhar
bastante, e criar metas para realizar nossos sonhos. Porque quando o vazio toma
conta é como morrer em vida. As pessoas que nunca tiveram depressão têm
dificuldades de entender o que leva uma pessoa a cometer suicídio. O que elas
não sabem é que o suicídio normalmente é um ato de “coragem” dos depressivos
para matar o corpo que comporta uma alma que já está “morta”. Vivemos num mundo
cheio de zumbis que não vivem, apenas sobrevivem. E a tendência, segundo as
estatísticas, é aumentar.
Portanto,
me sinto no dever de fazer alguma coisa para ajudar as pessoas, e a família das
pessoas, que passam pelo mesmo problema. E peço ajuda dos queridos leitores
para que esse livro chegue até o máximo de famílias possível. Pois hoje
dificilmente existe uma família livre de alguém com depressão que, muitas
vezes, ainda nem foi descoberta. Muitos depressivos sabem que a depressão é a
morte em vida, mas poucos sabem que há como ressuscitar a alma “falecida”
(antes de matar seu corpo obviamente). É missão de todos nós que nos importemos
uns com os outros, para tentar frear essa doença que acomete a humanidade
inteira.
“Depressão
é falta do que fazer”, “Depressão é preguiça”, “Depressão é falta de Deus no
coração”, “Vai fazer alguma coisa animada que passa!” Muitas pessoas ouvem e
falam frases desse tipo. Engraçado que essas mesmas pessoas não falam para um
diabético ou para um hipertenso, por exemplo, “vai fazer alguma coisa animada
para baixar essa glicose ou essa pressão” e sim dizem para tomarem seus medicamentos.
A depressão quando já instalada precisa de medicamentos sim para equilibrar as
substâncias químicas do cérebro que se desequilibraram por alguma causa
específica. E a terapia e o autoconhecimento precisam entrar exatamente para
descobrir essa causa e tratar a raiz do problema.
O
maior meio para descobrir as causas dos nossos problemas, é recorrer à
infância. É lembrarmo-nos do que fazíamos, do que sentíamos, do que pensávamos
e, principalmente, do que sonhávamos quando criança para nos autoconhecermos,
ou auto descobrirmos. Foi o que comecei então a fazer, uma viagem ao meu passado
para recuperar memórias, me conectar comigo mesma, com a minha própria
essência, e consertar esse “probleminha”, ou pelos menos conviver melhor com
ele.
É muito importante ressaltar que
a depressão não se importa se estamos ou não em um relacionamento amoroso. Isso
não tem nada a ver com a falta de amor, como muitas pessoas pensam até hoje.
Claro que no início de um relacionamento, quando estamos no ápice da paixão,
dificilmente temos crises, mas depois elas voltam, nos mostrando que nossa
vida, por mais feliz que pareça, é composta de altos e baixos, de inferno e
paraíso. Mesmo que tenhamos alguém ao nosso lado que nos faça rir, que nos faça
sentir a pessoa mais bonita e importante do mundo, e que realmente se importa,
cedo ou tarde as crises retornam. Mas, elas se tornam suportáveis pela presença
em nossas vidas daqueles que nos amam.
Portanto, sou grata pelo anjo
que chamo de “Príncipe charmoso” nesse livro, por estar sempre ao meu lado, sem
julgamentos, apenas me confortando e dizendo “vai passar”. Por isso, aproveito
abaixo as palavras de outra pessoa que já passou pelo mesmo problema, para
expressar minha eterna gratidão por ele ter entrado e permanecido na minha
vida.
“Eu sou grata pelas noites em que ele me conforta enquanto eu choro por
horas seguidas sem motivo. Eu sou grata porque ele tolera os meus períodos de
irritabilidade sem hora para acontecer... Muitas vezes penso sobre como tenho
sorte de ser amada, independentemente das minhas falhas químicas. Este amor
intenso é assustador, porque dia após dia, eu fico esperando que uma hora, uma
dessas coisas vai empurrá-lo sobre a borda do limite da tolerância. Que na
próxima vez que estiver me revirando na cama, com os olhos marejados, por
nenhuma razão, vou acabar por afastá-lo. Eu sei que isso o perturba, e eu tento
tranquilizá-lo dizendo através da minha visão turva e salgada que não é culpa
dele. Muitas vezes me sobrecarrego com culpa e odeio que meus sentimentos sobre
mim mesmo possam causar alguma dor a ele. Algumas de nossas noites terminam em
um abraço apertado e um murmurado “me desculpe” saindo dos meus lábios, mas eu
sou muito grata que ele ainda tem o prazer de acordar comigo todas as manhãs.”

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